Fonte: https://minilua.com/o-arquivo-negro-brasil-nazista-4/

Brasil Contemporâneo: O Risco da Liderança Messiânica (ao estilo nazista)

O ensaio abaixo, eu escrevi, provocado pelo respectivo professor, para a disciplina de Ciência Política e Teoria do Estado, do Curso de Graduação em Direito, a partir de estudo feito a partir do texto “Elementos do Anti-Semitismo: Limites do Esclarecimento”, de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, expoentes da Escola de Frankfurt.

O que me chamou a atenção, e me leva a compartilhar o meu ensaio, avaliado com nota máxima, com meus leitores, são as semelhanças conjunturais, guardadas as proporções e o substrato sócio-histórico de cada povo, entre a Alemanha da década de 30, que viu crescer o Nazismo, e o Brasil atual, que, perigosamente, começa a se agarrar a uma liderança messiânica com muitas proximidades com o ocorrido naquele país.

Convido-os a lerem o meu ensaio, pela transcrição abaixo ou pelo arquivo em pdf:

“o Brasil atual, que, perigosamente, começa a se agarrar a uma liderança messiânica com muitas proximidades com o ocorrido naquele país [Alemanha].”

Fonte: http://ultimosdiaslastday.blogspot.com.br/2016/09/cenario-politico-nazista-no-brasil.html

“O Brasil Contemporâneo: O Risco da Liderança Messiânica

1 INTRODUÇÃO

Theodor W. Adorno[1] e Max Horkheimer[2], dois expoentes da Escola de Frankfurt[3], dedicaram  um capítulo de seu livro “Dialética do Esclarecimento” a debater os fatores que permitiram a emergência do antissemitismo no nazifascismo alemão. Intitulado “Elementos do Anti-Semitismo: Limites do Esclarecimento”, o texto tece as relações entre os elementos econômicos, ideológicos, políticos, psicológicos, sociológicos, religiosos e culturais que permitiram a eclosão desse fenômeno histórico, as quais, aqui, abordo especialmente sob o viés da emergência de uma liderança nacional messiânica.

A obra citada, embora escrita a respeito de um fenômeno histórico específico, não pode tomada como adstrita a tal, pois a forma como realiza a análise daquele locus histórico serve como forma passível de ser aplicada a outros contextos, já que, ao cabo, indica que os tipos de elementos mencionados acima são manifestações ou estão diretamente ligados a uma estrutura humano-social subjacente. Ainda, essa obra transcende o seu momento histórico, pois é plausível encontrar elementos similares ao da Alemanha Nazista em outras sociedades, servindo como esclarecedora de uma dinâmica histórica e social que pode se desenrolar a partir desses elementos. Assim, mais importante do que o alvo da estrutura social e política que permitiu a emergência do antissemitismo na Alemanha Nazista (os judeus), é a percepção dos fatores construtores dessa estrutura, os quais, recombinados em outro contexto histórico, podem permitir, apesar das circunstâncias específicas, um fenômeno de tipologia semelhante, ainda que direcionado contra outro alvo.

Dadas essas considerações iniciais, chega-se ao objetivo deste ensaio, qual seja, verificar o que há de semelhante entre a estrutura da sociedade e da população da Alemanha Nazista e a do Brasil atual, a fim de se verificar se há elementos de similaridade entre aquela e essa que permitam, aqui, a emergência de uma liderança messiânica capaz de produzir um fenômeno semelhante ao antissemitismo de lá.

 

2 ELEMENTOS DO ANTISSEMITISMO

                        Como referido no início deste ensaio, Adorno e Horkheimer apontam elementos de sete tipos que explicitam a estrutura humano-social que permitiu a eclosão do antissemitismo nazifascista. Contudo, antes de entrar nesses aspectos, faz-se mister ter em mente, ainda que minimamente, o contexto alemão do pós I Guerra Mundial. Perry (2002, p. 572-579) explica, por um lado, como a derrota, tida como humilhante, nessa guerra foi atribuída popularmente à social-democracia, que, sob Friedrich Ebert, derrubou o Império Alemão no final da Guerra e assinou o armistício e, por outro, como as consequências econômicas da destruição pós-beligerante e do déficit governamental decorrente especialmente das indenizações de guerra e da paralisia econômica do país, mitigado pela ampla emissão de moeda (que gerou a inflação absurda de cerca de 36.000.000.000% entre 1919 e 1923), o que provocou a ruína da classe média e a pauperização geral da população. Nesse quadro, levantes radicias de esquerda e direita irromperam no país, descrente com a república: levante comunista de 1919, com tentativa de deposição do governo republicano e Repúblicas Soviéticas de Munique, Baden e Brunswick, ambas combatidas pelos Corpos Livres – brigadas voluntárias de ex-militares -, que, após, tomaram Berlim e destituíram o governo legítimo, apenas restaurado por uma greve geral convocada pelos sindicatos. O quadro tornou-se ainda mais crítico com a invasão francesa à Ruhr, centro industrial alemão, em represália à inadimplência das indenizações de guerra. Entre 1924 e 1929, a situação econômica melhorou a partir da atração de capitais estrangeiros, sobretudo estadounidenses, através de juros altos e mão de obra barata. Entretanto, a Crise de 1929 cortou o fluxo de capitais e precipitou a crise alemã, que atingiu a cifra de 6 milhões de desempregados em 1932 (ROBERTS, 2003, p. 715).

            Estabelecido o contexto, segue-se para a análise Adorno e Horkheimer, os quais, do ponto de vista econômico, relativizam a apropriação de bens judeus pelos alemães, mais concentrados na elite nacional (1947, p. 81), dando destaque ao papel de intermediário econômico (comerciantes) que os judeus desempenhavam – com prosperidade econômica gritante à massa alemã empobrecida – (idem, p. 83) e à lógica fordista da industrialização alemã. que habituou os indivíduos a tão somente cumprirem sua tarefa com eficiência, de forma alienada, na grande indústria, perdendo a capacidade de reflexão e também seu caráter de sujeito, passando a serem objetos da fábrica, do sistema, do sindicato, etc. (idem, p. 94), num processo de reificação e de desumanização (idem, p. 95).

            Sob o aspecto ideológico, os autores indicam que a ação antissemita nazifascista não é precedida uma teorização consistente, mas, na verdade, após a ação é que se constrói uma teorização que a justifica: “Eles saem a pilhar e constróem [sic] uma ideologia grandiosa para isso, e falam disparatadamente da salvação da família, da pátria, da humanidade” (idem, p. 81). A racionalidade, no antissemitismo, é apartada e a ação justifica-se por si mesma (ibidem). Esse funcionamento estaria ligado à frustração coletiva com a promessa liberal-humanista, instrumentalizada na Constituição de Weimar, que a classe média identificava como decorrente de uma república liderada por marxistas (PERRY, 2002, P. 574), acerca dos quais supunha-se serem financiados pelos judeus. A ideologia fordista, por seu turno, expressa na indústria e na educação, deslocou o pensamento, a reflexão consciente, como uma tarefa a ser desempenhada por um setor específico da divisão do trabalho, promovendo uma expropriação do sujeito enquanto tal (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 96). Isso, aliado à carestia do contexto, produziu uma população acrítica, alienada, e manipulável por discursos irracionais, que transformou-se em uma massa combativa contra os alvos indicados pela elite política – judeus, franceses, comunistas e sociais-democratas. Interessante, também, é a relação entre o liberalismo democrático e o nazismo, pois esse ascendeu ao poder através das instituições daquele, valendo-se da liberdade individual de expressão, e, após, destruiu-o, anulando os sujeitos em prol de uma coletividade manipulada. Ainda, essa ideologia sobre a qual o nazismo, e seu antissemitismo, apoiaram-se era uma ideologia que pretendia-se pensada como contraposta ao defendido por Karl Marx. Segundo Amoretti (2017, p. 3),  esse pensador pautava sua visão e análise social a partir do materialismo da sociedade, inclusive identificando as classes, e sua luta, a partir de suas posições ante o materialismo da sociedade; ademais, para Marx, é justamente a luta de classes, em sua dialética, que move a história das sociedades. Já a ideologia nazifascista, nega a luta de classes e o materialismo como propulsor histórico, elegendo e fazendo proselitismo do nacionalismo (racial, nesse caso) como o fator impulsionador dos movimentos sociais, nos quais, pobres, ricos e etc. têm, antes, papéis diferentes de colaborarem para um projeto único de Estado total nacional do que de interagirem como tese e antítese para, a partir do choque de suas contradições, revolucionarem a sociedade.

Politicamente, o ódio aos judeus era útil à dominação realizada pelas lideranças nazistas, pois  “Ele é usado como manobra de diversão, como meio barato de corrupção, como exemplo terrorista” (idem, p. 81), ou seja, “a violência antissemita tinha o condão de manter as massas ocupadas com algo que lhes imprimia prazer, de corromper a sociedade sem necessidade de custos e também servia de exemplo àqueles que por ventura ousassem enfrentar o regime nazista. De uma só vez, divertia, comprava e atemorizava, mantendo, portanto, a população sob controle” (NIEMEYER, 2017, p. 5). Além disso, o antissemitismo passou a integrar o conjunto político da proposta nazista, de sorte que, ao simpatizar com alguns pressupostos desse programa, o indivíduo era levado a aceitar, irrefletidamente, o seu conjunto, onde estava incluso o antissemitismo. Isso levou a uma situação de vazio do antissemitismo enquanto conteúdo, tornado-se tão somente prática mecânica manipulada e alienada.

Já a análise psicológica dos autores é, provavelmente, a mais significativa, por cimentar os demais elementos e permitir a emergência de uma mentalidade que produziu o fenômeno. Para eles,  a base do antissemitismo é a paranoia, presente tanto em Hitler quanto na população em geral. A paranoia é um transtorno crônico de personalidade caracterizado por uma extrema desconfiança generalizada, muitas vezes somada a megalomania, que pode resultar em ciúmes exacerbado e necessidade de controle e que pode ser desencadeada por estresse (MELDAU, [s.p.]). O paranoico projeta para o seu exterior (para a realidade que o cerca), o que ele tem em seu interior, negando que exista tal projeção e, portanto, passando a admitir como real a projeção que fez, de forma irrefletida; além de evitar sociabilidades, necessita de controlar a realidade que projetou a partir de seu interior, para evitar a perseguição que crê sofrer em sua alucinação (ADORNO; HORKHEIMER, p. 88-90). Ora, o contexto alemão das décadas 1920-1930, já mencionado, era terreno fértil para o desenvolvimento coletivo de traços paranoides, dada a ruína identificada como causada por grupos e políticas específicos. O nazifascismo, liderado ele próprio por um homem paranoico, adaptou esse comportamento à política, “reforçando e fomentando o comportamento paranoide na população, gerando uma projeção coletiva de uma realidade que é, de fato, oriunda do interior do sistema e das pessoas que o comandam” (NIEMEYER, 2017, p. 6), pois, nesse transtorno, o inimigo é aquele que é dado como tal pelo distúrbio e não pela experiência refletida. Ainda, “como, para o paranoico, a violência e a perseguição que realiza são tão somente sua desesperada legítima defesa contra aqueles que o perseguem, ele não é acometido por dúvidas morais em seu agir perseguidor e violento” (idem, p. 7), permitindo-se realizar e continuar a violência que pratica. Ao líder paranoico, manipular a paranoia coletiva é quase natural, orientando-a em direção aos seus interesses, mesmo que oriundos de sua própria alucinação, que ele percebe como real.

Sob o prisma sociológico, Adorno e Horkheimer (1947, p. 81) apontam que o antissemitismo constituiu-se num movimento popular em que os seus participantes, com baixo retorno financeiro, satisfazem-se com a percepção de que o perseguido tem uma situação ainda pior que a deles. Também funciona como elemento de inclusão social, de formação e afirmação de identidade de grupo entre os perseguidores, além de servir como “válvula de escape” ante o desespero da situação sócio-econômica. Por fim, o alvo judeu era, ainda, coerente, pois essa comunidade externava hábitos que os diferenciavam da comunidade “puramente ariana”, consistindo numa afronta visível à sua pretensão coletividade e superioridade. (idem, p. 82). Esse funcionamento social, ainda, era possível pela corrente “irresponsabilidade individual sobre os atos, desde que tais sejam a contribuição desses indivíduos ao aparelho dominador, no caso alemão, o partido nazista e o regime totalitário de Hitler” (NIEMEYER, 2017, p. 8).

Já o elemento religioso, para os pesquisadores, era, por um lado, um pretexto, já que o discurso dessa natureza já não possuía força de mobilização popular (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 83). Mas, por outro, era parte de um substrato cultural inconsciente que podia ser mobilizado pela elite política dominante. Ou seja, ainda que, racionalmente, o discurso religioso antissemita não provocasse comoção popular, a história de milênios de perseguição aos judeus deixara marcas no ino inconsciente coletivo que poderia ser acionadas, ainda que por discurso de natureza não religiosa, contra esses mesmos alvos. De ordem religiosa também era a relação entre a população paranoica e desesperada e seu líder – Hitler – colocado como o messias nacional, aquele que veio para resolver todos os problemas da nação e recolocá-la em seu local de direito no mundo. Esse líder fala e a população o segue irrefletidamente e o acredita dogmaticamente, cada vez mais à medida que ele consegue fazer melhorar a situação sócio-econômica do país e de sua população, como o fez especialmente nas questões inflacionárias e de emprego (ROBERTS, 2002, 581). Assim, emerge o Estado-Líder, onde o seu chefe é a personificação da vontade do povo (idem, p. 580): “A autoridade do Führer é total e abrangente (…) não está sujeita a controles ou reservas; não é circunscrita por nenhum (…) direito individual; é sobrepujante e livre de grilhões.” (KRAUSNICK et al, 1968, p. 128, apud ROBERTS, 2002, p. 580).

Como último ponto de análise, a cultura funcionou como um elemento formador da “paranóia [sic] das massas” (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p, 93), através do fomento e direcionamento dos traços coletivos paranoides, cujo comportamento foi, então, potencializado (ibidem). Ainda, a cultura, sob o capitalismo fordista, transformou-se numa mercadoria, consumida superficialmente, sem reflexão conceitual (idem, p. 95), de forma que “a cultura deixou de ser o relacionamento de conceitos entre si e com a realidade e o esforço intelectual de apreensão e evolução do entendimento, para se tornar tão somente a propagação de informação-mercadoria, presente, imediata e superficial” (NIEMEYER, 2017, p. 10). Nesse sentido, Casagrande (2017, p. 1) aponta, a partir dos mesmos autores, que a cultura, sob a perspectiva da indústria cultural, constitui-se como um sistema coeso, em que as manifestações nas diferentes mídias são pautadas pela semelhança entre si, sem a possibilidade real de ideias alternativas ganharam espaço real. Esse sistema cultural conduz à população à alienação e ao culto da repetição do que é propagada por essa indústria cultural. A existência dessa indústria cultural na Alemanha, submetida ao Estado-líder nazista, tornou-se uma fortíssima força de cooptação e manipulação da população para o sentido dos objetivos do partido nazista. Carlet (2017, p. 4), analisando Habermas, aponta a relação imbricada entre publicidade e jornalismo no início do século XX, através do qual a publicidade, que busca arregimentar a opinião pública, pode ser usada, maquiada de notícia, para atingir setores mais esclarecidos da sociedade alemã. Ao cabo, os autores apontam que a perda de importância do trabalho físico na sociedade, brutaliza o agir intelectual, destino consequente da energia física agora não acomodada na produção econômica (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p, 93).

 

3 COMPARAÇÃO COM O BRASIL ATUAL

Comparar o contexto e o a estrutura humano-social do Brasil atual com o da Alemanha das décadas de 1920-1930 é algo bastante complexo e, certamente, este trabalho poderá apenas lançar algumas questões e fazer algumas ponderações iniciais, sem poder estabelecer com o rigor científico e com o aprofundamento necessários conclusões mais sólidas e robustas. Inicialmente, traçando um paralelo dos contextos político e econômico, sabe-se que o Brasil não advém de uma guerra, muito menos perdida em seu território, com a consequente destruição material. Entretanto, o Brasil atual é recém-saído de 21 anos de ditadura militar (1964-1985), a qual foi substituída por uma República amparada por uma Constituição de cunho predominantemente social-democrata, a  “Constituição Cidadã”, de 1988, como foi chamada por Ulysses Guimarães (BARROSO, 2015, p. 5; COUTO; ARANTES, 2006, p. 55)[4]. Aqui, pode-se estabelecer uma similaridade entre um período político crítico e a posterior emergência de uma Constituição social-democrata. Tal qual ocorreu na Alemanha, o Brasil pós-ditadura mergulhou (embora com intensidade comparativamente menor) em crise econômica e política (década perdida de 1980, renúncia de Fernando Collor de Mello e hiperinflação). Após, seguiu-se uma época de estabilização e retomada econômica (Plano Real, 1o. Governo Lula), solapada, afinal, por uma crise internacional (Crise de 2008) que jogou o país num cenário econômico tão ou mais crítico do que o anterior à estabilização – 13,7% da população economicamente ativa (ADVFN, [s.d.]a) e uma retração de mais de 7% do PIB nos anos de 2015 e 2016 (ADVFN, [s.d.]b), bem como numa instabilidade política (impeachment de Dilma Vana Rousseff, 14 pedidos de impeachment contra Michel Temer, além de envolvimento em muitos agentes políticos importantes em denúncias de corrupção, lavagem de dinheiro e etc.). Ou seja, ainda que com uma intensidade indubitavelmente menor ao que ocorreu na Alemanha, a dinâmica econômica e política brasileira seguiu uma trajetória semelhante à alemã do nazismo.

Diante desse cenário, a população brasileira, ainda que não tenha passado pelo processo de empobrecimento pelo qual passou a alemã, está, hoje, às voltas com uma drástica crise econômica, com um amplo desemprego e perda de renda, especialmente nos segmentos médio e pobre, enquanto a elite econômica continua se apropriando da parte mais expressiva da riqueza nacional – Avila (2015, p. 1) aponta que os 50% mais pobres detêm 2% da riqueza, enquanto o 0,21% mais rico detêm 40,81% da riqueza -, o que sugere a existência de uma insegurança econômica muito grande para a maioria da população nacional.

Do ponto de vista ideológico, sabe-se que o povo brasileiro, em geral, tem baixa escolaridade – média de apenas 8,8 anos (INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA, 2013, p. 1) em 2013 – e pouco conhecimento teórico político, filosófico, etc., o que produz uma sociedade que, tal qual a alemã nazista, não age a partir de uma consciência teórica crítica, mas busca, eventualmente, subterfúgios pseudo-teóricos convenientes para justificar o seu agir. Soma-se a isso a também semelhante frustração com a legislação e os governos ditos sociais-democratas, pois, além do difícil contexto econômico e político, a violência urbana que assola o país – classificado como o 11o. mais inseguro do mundo (G1, 2014, p. 1) – tem feito grande parte da população adotar discursos radicais contra a garantia de direitos fundamentais de acusados de crimes, bem como exigir medidas governamentais de força para a contenção dessa violência. Por derradeiro, nota-se, no Brasil, uma propaganda subconsciente, ou subliminar, feita pela grande mídia (como indústria da cultura) no sentido de legitimar as desigualdades sociais como necessária para o funcionamento da sociedade (p. ex., os empresários têm o papel de gerar emprego e, por isso, é legítimo o seu lucro, enquanto que os trabalhadores devem trabalhar e aceitar esse papel, submisso à “elevação” empreendedora), naturalizando essa desigualdade e imputando ao pensamento marxista de luta de classes um valor negativo, que seria prejudicial à sociedade.

No aspecto político, também se percebe um discurso de ódio nos extremos da direita e da esquerda brasileiras. São discursos que apontam o outro (direita versus esquerda) como o culpado pela tragédia nacional. Emblemática era a discussão entre defensores e acusadores da ex-presidente Dilma Rousseff, que se tratavam, respectivamente, como “petralhas” e “coxinhas”, num discursos vazio de conteúdo e sobrecarregado de emoção negativa. A partir, aliás, desse episódio, toda a esquerda brasileira passou a ser alvo de acusações de ódio, especialmente por um segmento conservador pseudo-critão fundamentalista que se avoca como detentor da ética e da moral na política nacional. Isso também se assemelha, em muito, ao ódio aos judeus no nazismo, obviamente, com um alvo e com métodos diferentes, dado o restante do contexto do locus histórico específico.

Psicologicamente, embora a afirmativa a seguir careça de toda e qualquer base científica, é muito plausível crer que a população brasileira apresenta traços paranoicos, dada a retração econômica, recaída especialmente sobre os segmentos médio e pobre da nação, dada a violência urbana contra a qual o Estado não consegue se impor eficazmente, e dada a amplitude do envolvimento da classe política com práticas espúrias, levando a um sentimento de negação generalizada “de tudo o que está aí”. Ou seja, a população brasileira está à mercê de um cenário político, econômico e social muito áspero e não enxerga, nas instituições atuais, os meios para superar essa crise; pelo contrário, como já dito, as garantias aos direitos fundamentais e a Constituição dita social-democrata são vistas como causadoras ou, pelo menos, cúmplices dessa crise, caindo em ilegitimidade perante a massa desesperada. Outra vez, vê-se grande similitude com o cenário da ascensão do nazismo na Alemanha. Aliás, é curioso que o principal representante político do conservadorismo pseudo-cristão fundamentalista no Brasil seja, também, um ex-militar que se utiliza dessa imagem como abonatória de sua moral, que diz ilibada e com a força necessária para destruir os inimigos internos na nação, que a corrompem.

Sociologicamente, não se encontra um grupo social não perfeitamente assimilado, tal qual eram os judeus na Alemanha de então. Contudo, também ocorre o fenômeno da identificação, por setores pobres e médios da sociedade, com o discurso da direita, pautado na defesa dos privilégios da elite. Ou seja, aqui, tal qual na Alemanha, a massa está caminhando no sentido de defender aqueles que a dominam, ou por não se darem conta da dominação, ou por não acreditarem na possibilidade de superá-la, aceitando, então, como vitória, que, pelo menos, haja alguém ainda pior que si. ]

Não há que se falar, no Brasil, de elemento religioso de combate aos judeus. No entanto, a expansão das igrejas neopentecostais e suas inserções na política, economia e instituições governamentais, aliada ao fato de que elas, notoriamente, alienam e manipulam aqueles que as seguem, é um dado religiosos que pode, sim, contribuir, tal qual na Alemanha, no seguimento de um líder com uma aura de messianismo nacional. Aliás, o já referido campeão do conservadorismo pseudo-cristão fundamentalista faz parte da chamada “Bancada da Bíblia” do Congresso Nacional, demonstrando o quanto ele se apoia no sentimento religioso do povo para fazer a sua política.

Ao cabo, há o elemento cultural. Aqui, vai-se ao encontro da Alemanha nazista no tocante à informação-mercadoria, superficial, imediata e irrefletida, cujo espraiamento é potencializado pelo uso indiscriminado e acrítico das redes sociais digitais. O fator que ainda parece diferente é o da mídia. Não que a mídia brasileira seja democrática ou progressista. Ela é iminentemente liberal e pautada por interesses mercantis que, embora vinculados à conservação de uma elite econômica, não parece estar aliada, pelo menos não a Rede Globo, franca líder do setor, ao segmento conservador pseudo-cristão fundamentalista, o qual possui suas ferramentas de mídia, mas ainda sem o alcance de massa necessário para produzir a histeria social produzida pelo antissemitismo nazista. De fato, a mídia brasileira parece estar vinculada à indústria cultural estadounidense, projetando os seus valores sobre a população brasileira, criando uma pressão no sentido de “pasteurizar” a cultura brasileira pelos padrões dos EUA e, dessa forma, tornar a população brasileira seguidora desses valores, que atendem às necessidades mercantilistas da mídia brasileira. Esse parece ser, a priori, o maior dificultador da emergência de um líder messiânico no Brasil, pois esse tipo de liderança não possui, até agora, afinidade ideológica plena com a indústria cultural estadounidense repetida no Brasil.

 

4 CONCLUSÕES

            A análise comparativa, ainda que superficial neste trabalho, entre o contexto e a estrutura humano-social da Alemanha nazista e do Brasil atual aponta uma preponderância de pontos de similitude. Essas semelhanças podem, sim, conduzir o Brasil a um processo de radicalização política, tal qual lá ocorreu, que pode desembocar na ascensão de uma liderança que chamo de “messiânica” – caracterizada por discursos inflamados que levam o povo a segui-lo emotivamente, deixando a política de ser pautada por projetos e por debates de ideias, para ser pautada por ódio e pela divisão da sociedade entre os “cidadãos de bem”, aliados ao “messias” e os inimigos do país, que devem ser exterminados e para os quais não existem direitos fundamentais a serem observados, quanto menos direitos sociais.

Obviamente, o cenário brasileiro, por mais crítico que se apresente hoje, não é tão drástico quanto o cenário alemão do pós Primeira Guerra, como se percebe no debate comparativo anterior, e nem tampouco a formação histórica do Brasil é a formação histórica da Alemanha (destaco aqui a mentalidade militarista oriunda da Prússia em contraposição ao “homem cordial” apontado por Sérgio Buarque de Holanda). Assim, sendo, embora, a partir do aqui analisado, vislumbre-se, sim, o risco da emergência de uma liderança política nacional “messiânica”, com seus desdobramentos negativos intrínsecos, é pouco provável que a intensidade da violência interna chegue a patamares próximos do que ocorreu na perseguição dos judeus na Alemanha.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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UOL EDUCAÇÃO. Theodor Adorno. Disponível em <https://educacao.uol.com.br/biografias/theodor-adorno.jhtm>. Acesso em 12 mai. 2017.

[1]             Segundo Niemeyer (2017, p. 1), “Theodor Adorno, diretor do Instituto de Pesquisas Sociais após a aposentadoria de Horkheimer, era formado em filosofia, sociologia e psicologia, além de musicólogo e compositor. De ascendência paterna judaica e pensamento socialista, teve de fugir da Alemanha durante a hegemonia nazista, lecionando em Oxford, Inglaterra, e Princeton, EUA. Foi nos EUA que desenvolveu seus estudos sobre a indústria cultural e a cultura de massa, a qual, a despeito do discurso individualista e libertário estadounidense, para ele, estava impregnada por ‘uma ideologia padronizada que a tudo perpassa, com a intenção de sujeitar a massa apática, induzindo-a ao consumismo e à submissão ao sistema’ (SANTANA, [s.d.]b).”.

[2]             Segundo Niemeyer (2017, p. 1), “Max Horkheimer, também alemão de ascendência paterna judia, lutou na 1a. Guerra Mundial e, após, estudou filosofia e psicologia. Foi um dos fundadores do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt e, posteriormente, seu diretor. Influenciado pelo kantismo, identificado com um marxismo não dogmático e dialogando com o pensamento de Nietzche e Schopenhauer, elaborou a ‘teoria crítica’ como contraponto à razão instrumental.”.

[3]             Niemeyer (2017, p. 1) aponta que a Escola de Frankfurt é tida como a quinta e última geração da época áurea da produção filosófica alemã, surgida durante o auge da República de Weimar. Santana ([s.d.], p. 1) a caracteriza da seguinte forma: “Esta Escola tinha uma sede, o Instituto para Pesquisas Sociais; um mestre, Horkheimer, substituído depois por Adorno; uma doutrina que orientava suas atitudes; um modelo por eles adotado, baseado na união do materialismo marxista com a psicanálise, criada por Freud; uma receptividade constante ao pensamento de outros filósofos, tais como Schopenhauer e Nietzsche; e uma revista como porta-voz, publicada periodicamente, na qual eram impressos os textos produzidos por seus adeptos e colaboradores. O programa por eles adotado passou a ser conhecido como Teoria Crítica.”.

[4]             Couto e Arantes (2006, p. 55), porém, relativizam essa percepção sobre a Carta Magna brasileira, ao indicarem que apenas 8,1% de seus dispositivos versam sobre direitos individuais de liberdade e participação política e apenas outros 5,7% tratam de direitos de bem-estar e igualdade social, de forma que o texto constitucional privilegiaria imensamente a organização do Estado e não a cidadania. Sem adentrar nesse debate, que não é o foco deste trabalho, lembro, em contraponto, que não é a quantidade de dispositivos constitucionais que promove a cidadania de uma povo, mas, sim, o alcance e o impacto desses dispositivos na realidade social fática.”

 “liderança que chamo de “messiânica” – caracterizada por discursos inflamados que levam o povo a segui-lo emotivamente, deixando a política de ser pautada por projetos e por debates de ideias, para ser pautada por ódio e pela divisão da sociedade entre os “cidadãos de bem”, aliados ao “messias” e os inimigos do país, que devem ser exterminados”

Sobre Artur Niemeyer

Eu nasci em São Leopoldo, onde resido hoje. Tenho, agora, 35 anos. Com QI de 138, formei-me técnico em Mecânica de Precisão pelo SENAI/CETEMP, licenciado em História pela Unisinos, onde agora estou cursando a graduação em Direito, e pós-graduado como Especialista em Gestão Pública pela UFRGS. Publiquei 2 capítulos de livros sobre Gestão por Processos em Segurança Pública, assunto que também apresentei em seminário internacional da área. Comecei a realizar pequenos trabalhos aos 15 anos. Aos 18 anos, passei a atuar na indústria metal-mecânica. Aos 20, passei pela minha primeira experiência de administração, ao gerir uma pequena empresa de assessoria contábil. Com quase 21 anos, ingressei na Polícia Rodoviária Federal, como policial. Trabalhei nas atividades de policiamento de rua, atendimento aos cidadãos, policiamento especializado, supervisão operacional da Região Metropolitana de Porto Alegre, licitações, fiscalização de contratos, corregedoria, projetos, acompanhamento de auditorias, planejamento e controle de operações e na segurança dos Grandes Eventos realizados no Brasil até 2014. Fui membro juvenil do Movimento Escoteiro por 10 anos e, atualmente, atuo como voluntário junto ao Grupo Escoteiro Cruzeiro do Sul. Em meados de 2015, iniciei um movimento comunitário local chamado "Projeto São Leopoldo Melhor", que atua apoiando causas e demandas da sociedade leopoldense, em prol de seu aprimoramento. Em 7 de setembro de 2015, ingressei na política, filiando-me ao PDT, por acreditar na democracia, na legalidade e na emancipação do povo pela educação e pelo trabalho. Em 15 de novembro, lancei minha pré-candidatura a vereador, defendendo uma política limpa, transparente, honrada e de conteúdo, pautada por projetos claros e viáveis. Atingi a suplência com 911 votos, apesar do pouco investimento financeiro, provando ser possível fazer política sem uso ou respaldo do poder econômico. Veja mais em: .

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Um comentário

  1. João Carlos Tomm

    A reflexão é oportuna e precisamos desmistificar essa cultura política oportunista de nosso país.

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