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O Fim da Cultura do Estupro

No final de maio, a notícia de um estupro coletivo, protagonizado por cerca de 30 homens, alguns adolescentes, chocou e sacudiu o Brasil. A mídia falava sem parar sobre o caso. Reportagem sobre o assunto foram feitas. Protestos foram realizados. Máscaras nas fotos do facebook foram feitas e publicizadas. Parecia que o Brasil iria abrir seus olhos… Mas passado apenas 1 mês, parece que o assunto simplesmente foi esquecido… por quê?

Não fiz nenhum estudo científico sobre isso, mas acredito que é porque esse assunto traga muitas feridas latentes da sociedade brasileira, as quais uma grande parte da nossa população não queira enfrentar.

Se posicionar horrorizado contra o estupro coletivo é fácil. Aliás, foi socialmente exigido. Qualquer um seria execrado se não o fizesse. Agora, abordar outras questões, mais sutis, mais socialmente aceitas, é bem mais difícil… e é aí que a luta pelo fim da cultura do estupro, infelizmente, esfria.

“passado apenas 1 mês, parece que o assunto simplesmente foi esquecido… por quê?”

O IHU noticiou que o IPEA apontou 67% dos casos de violência contra mulheres são cometidos por parentes próximos e conhecidos da família e que 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes. Conheci, certa feita, uma pessoa que trabalhava com crianças e adolescentes vítimas de abusos sexuais. Ela me relatou que cerca de 80% dos abusos eram cometidos por padrastos e, na grande maioria dos casos, com o consentimento da mãe (ativo ou por simples medo de também ser uma vítima).

Fonte: https://upload.wikimedia.org/ (Taxa de estupros por 100 mil habitantes ao redor do mundo)
Fonte: https://upload.wikimedia.org/
(Taxa de estupros por 100 mil habitantes ao redor do mundo)

Vivemos numa sociedade em que o macho, para se afirmar, tem que ser “comedor”, de qualquer modo. Melhor ainda se for transgressor! Aí ele é idolatrado!! Uh-hu!! Ninguém consegue enfrentar esse super-macho!

Também vivemos numa sociedade em que a força é a lei. Isso se dá de várias maneiras: pela força política que concede favores ou serve para enriquecimento ilícito, pela força econômica que compra soluções legais ou não, pela força das armas que garante territórios a bandos criminosos e pela força física para fazer valer a vontade de um sobre os outros, mesmo que seja (e talvez especialmente) dentro das famílias…

Não falo, aqui, de uma pequena sinalização para indicar limites a quem ainda não consegue racionalizar sobre o seu agir e suas consequências sobre os demais ou sobre a sociedade. Falo de espancamento e de constrangimento à submissão a simples desejos individuais, como os sexuais.

Estou falando de algo muito distante? Não! Se você está numa reunião social com outros homens e mulheres e sua parceira diz, por qualquer motivo, que hoje só quer ir pra casa dormir, você vira imediatamente motivo de piadas… “o quê? tu vais deixar assim? mostra quem é que manda!!”… aí o cidadão vai pra casa constrangido a “tomar uma atitude” para submeter a fêmea e a cidadã vai para casa constrangida a se submeter aos desejos do macho…

Se queremos, de verdade, enfrentar a cultura do estupro, precisamos, em primeiro lugar, mudar as pequenas ações cotidianas! Precisamos compreender que respeito significa dar ao outro o direito a si próprio!

Eu posso me impor pela força, mas não o faço porque quero uma sociedade, uma cidade e uma família justas! Eu quero transar com você, mas se você não quiser, eu sei que esse é um direito seu, sobre o qual eu não devo me impor, pois o seu corpo é seu e não meu!

Filhos e filhas? São para serem educados pelos seus pais e por eles preparados para a vida! Não são propriedade dos pais para sua satisfação pessoal, seja obrigando a um futuro profissional, seja usando-os sexualmente!

Essas coisas são sinais de respeito! E quando o respeito for algo natural (como se espera de uma sociedade civilizada), não precisaremos gritar contra estupros coletivos, pois eles simplesmente não existirão!

“respeito significa dar ao outro o direito a si próprio!”

Por fim, o IHU, citando o IPEA, aponta que apenas 10% dos casos de estupro são notificados. Por quê? Provavelmente pela vergonha, pelo medo e pela descrença nos órgãos públicos para trabalharem essa questão.

E aqui temos um enorme ponto crítico!! Os postos de saúde, os hospitais, os CRAS, as Delegacias de Polícia sabem como lidar com uma vítima de estupro? E se ela tiver sido estuprada dentro da própria casa, o que farão? Irão registrar a ocorrência e mandá-la de volta para casa? E a punição aos estupradores, como anda? É rápida? Eficiente? Consegue afastar esse criminoso do convívio com a sociedade? E com as vítimas muitas vezes feitas dentro de casa?

Temos muito que avançar… tanto na cultura social quanto nas instituições estatais… não basta pôr frases e imagens nas redes sociais, é preciso repensar o que fazemos no nosso dia-a-dia e é preciso construir uma rede verdadeira de acolhimento às vítimas de abuso sexual e verdadeiras punições aos criminosos sexuais… senão, o caso do Rio de Janeiro terá sido apenas mais um flash da mídia…

Sobre Artur Niemeyer

Eu nasci em São Leopoldo, onde resido hoje. Tenho, agora, 35 anos. Com QI de 138, formei-me técnico em Mecânica de Precisão pelo SENAI/CETEMP, licenciado em História pela Unisinos, onde agora estou cursando a graduação em Direito, e pós-graduado como Especialista em Gestão Pública pela UFRGS. Publiquei 2 capítulos de livros sobre Gestão por Processos em Segurança Pública, assunto que também apresentei em seminário internacional da área. Comecei a realizar pequenos trabalhos aos 15 anos. Aos 18 anos, passei a atuar na indústria metal-mecânica. Aos 20, passei pela minha primeira experiência de administração, ao gerir uma pequena empresa de assessoria contábil. Com quase 21 anos, ingressei na Polícia Rodoviária Federal, como policial. Trabalhei nas atividades de policiamento de rua, atendimento aos cidadãos, policiamento especializado, supervisão operacional da Região Metropolitana de Porto Alegre, licitações, fiscalização de contratos, corregedoria, projetos, acompanhamento de auditorias, planejamento e controle de operações e na segurança dos Grandes Eventos realizados no Brasil até 2014. Fui membro juvenil do Movimento Escoteiro por 10 anos e, atualmente, atuo como voluntário junto ao Grupo Escoteiro Cruzeiro do Sul. Em meados de 2015, iniciei um movimento comunitário local chamado "Projeto São Leopoldo Melhor", que atua apoiando causas e demandas da sociedade leopoldense, em prol de seu aprimoramento. Em 7 de setembro de 2015, ingressei na política, filiando-me ao PDT, por acreditar na democracia, na legalidade e na emancipação do povo pela educação e pelo trabalho. Em 15 de novembro, lancei minha pré-candidatura a vereador, defendendo uma política limpa, transparente, honrada e de conteúdo, pautada por projetos claros e viáveis. Atingi a suplência com 911 votos, apesar do pouco investimento financeiro, provando ser possível fazer política sem uso ou respaldo do poder econômico. Veja mais em: .

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